terça-feira, 23 de agosto de 2011


Contigo

Você sabe que não leio Contigo. Escrevo este texto para declarar que quero viver contigo.
Contigo quero ter um cachorro e um gato...
Contigo viverei eternamente pisando em nuvens cor de rosa choque com bolinhas cor de abóbora...
Contigo... Ah, comigo você aprende os meus passos de lundu...
Contigo como peixe no almoço e no jantar, aquele que compraremos com um pescador na Ribeira...
Contigo resisto, insisto e me inspiro para respirar...
Contigo serei tua preta em viagens por terras africanas e nos tornaremos um mito de amor angolano...
Contigo exalo o perfume da minha alma na tua, quando deito no seu peito e conto os batimentos do teu coração...
Contigo continuaremos a alimentar, eu as suas e você as minhas, as nossas belas esperanças azuis...
Contigo suportarei dormir com o ar condicionado ligado no inverno só para me enroscar ainda mais em você...
Apenas contigo serei fiel...
Contigo deixo de lado o meu Dolce & Gabbana para usar Natura...
Contigo encho a nossa casa de plantas e flores...
Contigo vivo no mundo da lua e não deixo que o sol dê um fora nela...
Contigo eu deixo de ser “Uma outra qualquer por aí”...
Contigo viro uma "sushiwoman"...
Contigo Tereza pode dormir...
Contigo o meu travesseiro também é seu...
Contigo faço sobrar o meu salário...
Contigo danço loucamente com aquela tua camiseta rosa que eu adoro na frente do espelho...
Contigo ouviremos sempre que pudermos Amy Winehouse...
Contigo aprendo a falar Inglês...
Contigo faço projetos para captação do que for necessário...
Contigo largo cerveja pelo licor, o pagode pelo teatro...
Contigo só não deixo meus amigos, mas largo de mão quem não for de fato necessário para mim...
Contigo serei apenas tua...
Contigo farei yoga toda manhã e quantas horas de meditação você quiser, bastar estar ao meu lado...
Contigo uso apenas duas operadoras de celular, pois se eu disser que usarei apenas uma é hipocrisia...
Contigo faço as mesmas birras de sempre só para que você me dome...
Contigo assistirei “Em busca da Terra do Nunca” em todas as tardes que nos dê vontade...
Contigo iremos de trem da Calçada à Paripe, de mãos dadas, rindo da naturalidade da vida que o Subúrbio soteropolitano não perdeu...
Contigo eu perco o medo de dormir nas noites difíceis...
Contigo andarei de bicicleta à padaria, à praia ou à Igreja do Bomfim...
Contigo aprenderei a tocar violão e faremos juntos uma canção de amor...
Contigo serei apenas amor...
Contigo acredito no amor...
Contigo, meu gama, eu continuo a ser a sua Daysoca
Contigo, meu amor, comigo, meu amor...
Contigo... Fica comigo...

sábado, 2 de julho de 2011

A pior das deficiências é a da alma

Primeiramente, gostaria de avisar aos leitores e leitoras menos atentos(as) que no texto inicial do blog eu afirmo que não sei qual será a freqüência de escrita, muito menos se a mesma existirá. Estou largando logo esta ousadia de cara, pois tenho sido cobrada por um monte de gente que se diz leitor/leitora assíduo(a) daquilo que escrevo, recebo acusações de ter deixado uns e outros viciados na minha leitura e que nunca mais dei o ar da graça, umas e outras que catou um texto novo para dar aula,...“Ói”, vocês me deixem, viu?! Ri muito com o que ouvi pela minha ausência de escrita...

Mas vamos ao que interessa! Tenho muitas coisas em mente para escrever, umas inacabadas e pela ordem de prioridade, hoje vou provocar um pouco acerca daquilo que chamam deficiência física.

Uma das minhas justificativas para a minha ausência foi por conta da minha deficiência física. Sim, sou deficiente física! A Miastenia Gravis, doença que até os marcianos sabem que eu tenho, me incapacita fisicamente e de acordo com protocolos médicos, pesquisas, definições mundiais em documentos de saúde, com direitos assegurados na Constituição Federal. Muitas pessoas, quando querem conversar sobre a minha doença e repito tudo que já disse no blog, Orkut, Facebook, email, MSN, telefone, conversas de bar, de ônibus, telepatia, sonhos e outras milhões de formas e momentos eu afirmo que aceito a condição de deficiente de forma muito tranqüila.  
http://www.gruporsbrasil-online.com.br/gilson/noticias.asp?cod=18


Muitas acham que eu estou me agourando, outras que não tenho necessidade de chamar atenção com tal afirmação, outra se fazem de maluca e não reconhecem o que eu digo, outras demonstram claramente que não aceitam aquilo que é a minha condição e que eu já aceitei. Qual o problema, hein?

Na comunidade de Miastenia Gravis do Orkut, li o depoimento de uma miastênica em que ela falava sobre o uso da cadeira de rodas. Para alguns portadores da doença, há momentos que sem a cadeiras de rodas, não existe possibilidade de locomoção e esta é uma possibilidade que pode ser minha também. A minha companheira de MG citou no tópico que certa feita uma senhora olhava para ela com um ar penoso por conta dela estar na cadeira de rodas. Não satisfeita, a senhora ainda largou esta pérola: “Uma moça tão bonita usando cadeira de rodas, que sofrimento!”. Ô gente, só feio que usa cadeira de rodas é? E outra, que parâmetro de feiúra ou belezura se usa para o deficiente físico ou não deficiente? A menina, muito educada, não deu à senhora a resposta que quem bem me conhece sabe que eu daria na hora. Mandaria ela tomar no monossílabo!

É óbvio que eu não desejo dar uma volta no Salvador Shopping, trabalhar, pegar ônibus, ir à praia ou ir ao ensaio do É o Tchan do Brasil de cadeira de rodas, mas caso a doença exija tal condição qual é o problema? Com certeza, não vai faltar quem empurre a cadeira, ou vai? Esta é uma situação superada para minhas caramiolas enlouquecedoras que esta doença me trouxe.

 O que me preocupa de fato é a falta de respeito e o preconceito que se tem ao deficiente físico neste país. Eu mesma, já fui vítima deste preconceito algumas vezes. No ápice da última crise que tive, tentei subir no ônibus. Gente, pensei que estivesse escalando uma montanha por conta da altura do degrau! Dando continuidade ao meu sufoco, fiquei alguns minutos tentando passar no torniquete sem conseguir. Como tenho perda de força, pasmem, nem conseguir empurrar o torniquete eu conseguia. O cobrador se fez indiferente da minha existência e me deixou lá me acabando para conseguir passar, até que um rapaz que estava atrás me ajudou.

Uma outra situação bastante constrangedora foi numa fila de uma loja de departamentos aqui em Salvador. Eu tinha pouco tempo que havia feito cirurgia e fui para o atendimento preferencial. Estava munida da minha carteirinha da ABRAMI (Associação Brasileira de Miastenia Gravis) e fiquei na fila. Já estou acostumada com os olhares de reprovação das pessoas que procuram a deficiência em mim, um braço amputado, uma perna atrofiada, uma barriga de gravidez e não encontram. No início, a vontade era gritar bem alto para todo mundo ouvir na fila, armar um barraco e esfregar a carteira nas fuças de quem olhou mais feio, mas eu entendo que além da falta de educação e respeito das pessoas, muitas outras que estão na mesma condição que eu utilizam de ardilosos artifícios para obter vantagens. Voltando à fila, uma funcionária me disse em alto (alto mesmo) e bom tom, com o olhar de reprovação e cheia de caras e bocas que a fila em que eu estava era preferencial. Respondi a ela o que era óbvio, “Querida, muitíssimo obrigada, mas  sei ler, meu bem, sou alfabetizada e dotada de letramento!”. Todos na fila se entreolharam, cochicharam e a senhorita saiu de cara feia e ficou ao lado dos caixas. Por sorte, ao lado do caixa que eu seria atendida. Eu que não sou besta nem nada, assim que cheguei ao caixa me identifiquei para a garota que me atenderia com a minha carteira e a minha identidade. Muito educadamente, ela me pediu licença para perguntar o que tinha quando olhou para o meio do meu peito e viu a cicatriz de 8 centímetros. Resumi para ela a história e falei o tempo que tinha sido operada. A funcionária que havia tentado me destratar antes não conseguiu esconder que estava completamente constrangida e assim que terminei de contar a história e mandei umas indiretas para ela saiu de fininho.

Há ações muito simples que cada um de nós deve praticar cotidianamente. Ao invés de ter pena do cego, ajude-o a atravessar a rua; respeite a vaga de estacionamento para portadores de deficiência física; ceda o lugar nos assentos antes mesmo do lugar ser solicitado. Respeite o limite daquele que te diz “Só vou até aqui!”. Existem pessoas que gostam e abusam da condição de deficiente, mas ninguém desejou estar em tal condição. Já nos bastam as pessímas condições das ruas e calçadas e o acesso aos prédios públicos, banheiros, lojas, restaurantes ou ambiente de entretenimento...
http://ivanfidalgo.blogspot.com/2008/12/dia-mundial-dos-portadores-de.html


Algumas pessoas mais próximas a mim e que estão bem perto de irem para bem longe, afinal eu não agüento mais certas conversas, não entendem como há dias em que eu estou numa boa, fazendo farra, trabalhando, fazendo yoga e em outros não tenho forças sequer para prender o cabelo. Quem ainda tem dúvidas pode fazer três coisas que recomendo. A primeira é marcar uma consulta com um médico ou médica neurologista e buscar informações acerca da Miastenia Gravis. A segunda é confiar naquilo que eu digo, explico e reexplico sobre a doença e entender que eu tenho limites e que apenas eu posso delimitá-los. A terceira é dar conta de uma trouxa de roupas para lavar e passar, procurar ler um livro ou catar cascas de amendoim, uma por uma na Estação da Lapa e parar de encher a minha paciência. Caso nada disso resolva, há ainda uma opção minerva. Vou fazer um acordo com alguma instituição que faça adoção de gatos. Desta forma, para aqueles que ficarem tomando parte da minha vida, dou um felino de presente. Creio que desistam de tomar conta do que acontece com a minha vida para darem conta das sete vidas do gatinho que ganharam de presente!

Ainda para aqueles e aquelas que acham que a concessão de um desconto para a compra de automóvel, assentos reservados ou atendimento prioritário é algo vantajoso, experimente sentir e imaginar em si as dificuldades, dores e dissabores de quem tem problemas de locomoção e de praticar ações muito simples e corriqueiras como atravessar a rua, ir e vir para onde quiser, como e quando quiser. Quem quiser Miastenia Gravis, estou doando a minha e ainda pago indenização!
http://dossiemagali.pbworks.com/w/page/18123281/defici%C3%AAncia-f%C3%ADsica


Para maiores informações: 

terça-feira, 7 de junho de 2011

Eu sempre vou amar, ainda que viva sem paz!

Outro dia, ouvi de uma pessoa muito jovem que não acredita mais no amor. Ela já deve ter acreditado antes neste sentimento e teve lá os seus motivos para acreditar que não se pode mais amar, ou pelo menos pensa que não. Certamente, paz e amor são inversamente proporcionais, na maioria das relações, afinal lidar com as diferenças exige estar em guerra de vez em quando, se é que você, leit@r, me entende.


Ainda que eu tentasse não amar, não conseguiria, não nesta existência. É muita gente, são muitas situações, muitos casos e acasos para eu não me permitir amar. Amo mesmo. Amo inteira. Amei várias vezes, muitas vezes, visceralmente, algumas bem poucas vezes. Amo tanto que sinto dor, quando o amor acaba acho que a dor não passará e quando vem a paz de não estar amando o que eu faço? Ah, eu volto a amar de novo tudo que é amor novo.

http://www.sepal.org.br/novo/index.php?option=com_content&view=article&id=3407&Itemid=149

Há amores que são perenes. Eu tenho um amor perene, um amor que transpassa tudo o que vivo e que sinto há alguns anos. Não vou me deter a este amor neste texto, prefiro deixá-lo quietinho bem junto das minhas "belas esperanças azuis", como diz um lindo poema de Aninha Franco.


Não acredito em alma gêmea, mas em almas plurigêmeas. Todos os amores que tive me completaram de alguma forma e me forjaram como gente como sou agora. Tenho em mim um pouco de cada amor que vivi e deixei em cada um dos meus amores do passado, e também nos de agora, um pouco de mim. Eu acho que todo amor precisa ser eterno, apenas enquanto ele durar. Se nem o universo é infinito porque o amor precisa ser? Qualé! O amor pode ser grandão, mas infinito é pedir demais...


O amor me move! Preciso acreditar nele para que a vida tenha sentido. Não aceito ser comum o fato de gente tão jovem quanto este moço ao qual me refiro neste texto não acreditar no amor, afinal as relações, todas elas têm sido cada vez menos amorosas. A ausência do amor machuca o outro sem pensar nas conseqüências. Mata-se por amor, mas muito mais por falta de amor. Tem sido difícil se amar, quiçá o próximo! Por isso mesmo, faço tudo ao contrário. Só de sacanagem, como afirma a letra do poema de Elisa Lucinda, enquanto todos são desosnestos eu serei honesta com o amor, afinal ele merece.


Resolvi escrever este texto após ouvir o depoimento deste moço e, por uma incrível coincidência, ouvir uma música que retrata bem esta dualidade da relação entre o amor e a paz, na voz da Martinália, essa nêga safada que coloca amor em tudo que canta. Amo Martinália! Preciso parar agora e escrever mais sobre o amor em outro momento, mas acho que você, leit@r, devesse escutar esta bela canção e buscasse sentir mais amor, mesmo que isso comprometa aquilo que você anseia como paz.





E você, moço que não crê no amor, ama mais uma vez e outra e outra e outra e vais acreditar que o amor existe, só que ele acaba. Não necessariamente com um bico fino, como escrevi num texto anterior, mas acaba porque ele é finito.Como bem disse o poeta, ele, o amor, só precisa ser eterno enquanto ele durar, meu bem.

Cheia de amor,


Daysoca Sacramento

terça-feira, 31 de maio de 2011

Ô anta, não é esgoto, era um rio!

Lembro-me bastante saudosa da Avenida Paralela há uns 20 anos. Moro no Cabula VI há 28 anos e tenho marcada na minha memória as transformações que aconteceram com a realidade urbanística do bairro em que nasci, cresci, me criei e ainda hoje resido e do seu entorno. Lembro que o espaço que hoje se intitula Narandiba, quando era apenas uma “vala” e que tinha apenas mato, árvores e água de rio. Hoje virou um amontoado de casas e de gente tanto no acesso ao Doron, quanto ao Cabula VI. Calma, não estou querendo preterir ás pessoas às arvores e ao mato... Quer dizer, se esta cidade tivesse um processo de urbanização respeitoso, preferiria sim as árvores, os matos e o rio às casas e pessoas amontoadas.

Eu tenho muitas reservas para falar do homem que ocupa o cargo de prefeito da minha cidade. Tenho dores no estômago, alucinações, cefaléia, náuseas, formigamento e disenteria quando lembro que considerei que esta anta* seria a melhor opção para a minha cidade há 6 anos e alguns meses atrás. Fui vítima direta desta anta, mas prefiro falar mais mal dele em outro texto mais a frente. Agora, preciso voltar para falar de algo que tem me incomodado bastante nesta cidade, que é o tratamento dado aos rios que percorriam a via urbana. Carlota (A Portela!), uma grande amiga minha, sempre falava muito revoltada sobre esta questão e eu procurei ficar atenta. Lembro bem de quando ela criticava uma "obra de saneamento básico" (leia-se, "tapamento" de rios poluídos ao invés de tratá-los) na avenida Centenário, nas imediações do Calabar, quando íamos trançar o cabelo com Meire. Em toda cidade, se comemora uma alguma nova obra inaugurada pela anta que ocupa o cargo de prefeito. Em todas elas, ele mesmo afirma que tem tratado os esgotos da cidade. Gente, é preciso ser engenheiro ambiental para se dar conta de que estão tapando, cobrindo, aterrando e poluindo ainda mais os rios da cidade transformados em esgotos? Não posso dizer ao certo os nomes destes rios e as suas devidas localizações, mas prometo que vou dar conta desta informação. Acho que vou demorar um pouco para obter esta resposta, afinal o absurdo das informações colhidas deve ser tão desrespeitoso com o meio ambiente que prefiro sofrer esta dor depois.

Terça- feira, dia 26 de abril, fui “seqüestrada” por uns amigos queridos para comer alguma coisa, “tomar uma” (leia-se uma de verdade) e jogar conversa fora. Resolvemos ir às barraquinhas do Imbuí, que agora foram retiradas da parte lateral da avenida principal e agora estão em cima do rio. Não, não me refiro às barracas flutuantes. Refiro-me à uma obra amplamente comemorada pela população local, como o alívio para as enchentes, fim dos esgotos a céu aberto. Senhor, daí-me paciência! Bastou que nós sentássemos na cadeira para que Lelê soltasse a pérola: “Hum, houve a reforma, mas o lundum ainda está aqui!”. Alessandro se referia ao fedor que subia do chão, das águas que corriam debaixo dos nossos pés. O rio ainda labuta pela sua existência. Sabe Deus o que não andam jogando nele, que esgotos foram desviados para o seu curso feito de canal.

Creio que a anta que ocupa o cargo de prefeito desta cidade devesse tapar três outras coisas muito importantes. Primeiramente, tapar os buracos que assolam a cidade fio a pavio. Ah, quem mora na Pituba ou na Barra não sabem sobre o que estou falando. Para sanar as dúvidas e corroborar com o que eu digo, vai na Estação da Lapa (Estou terminando um texto sobre a Lapa!), pega algum ônibus que faça a linha Lapa/Valéria e vai entender o que estou dizendo. O dinheiro do IPVA tem sido utilizado para quê? Em segundo plano, a anta que carrega a faixa de prefeito deveria tapar os rombos nas contas públicas. A vida dele e da sua equipe(in)gestora é falar que não tem dinheiro para isso ou para aquilo. Por fim, “TAPA A BOCA, JOÃO HENRIQUE!!!”, ninguém mais agüenta ouvir as suas lamúrias de que não tem apoio de ninguém ou que está sozinho, João chorão!

Acho que em homenagem ao prefeito, deveria ser erguida uma estátua como esta bem no meio da Praça da Sé!



*Classificação zoológica da anta, um roedor de charqueada que rói a cidade, fazendo buracos. Qualquer semelhança é mera coincidência?



Revisão, correção, edição, comentários e dicas do meu querido amigo Márcio Nicory, aquele tipo de gente sensível e atenciosa que hoje em dia está raro de se encontrar...

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Não quero tolerância, eu exijo respeito



Respeite-me. Esta é uma exigência. Não quero a tolerância de ninguém, eu quero, exijo, preciso e mereço respeito. Tolerância é não aceitar como sou e apenas “suportar” por muitos e muitos motivos. Caso não seja assim, prefiro distância. Os últimos seis meses da minha vida têm sido um tsunami de coisas a fazer, a repensar, a mudar, a escolher, a viver, a sentir, a desejar, a temer, a gostar. Não estou apenas doente, sou doente. Esta afirmação não legitima o sentimento de auto-padecimento ou de dó de ninguém. Esta afirmação legitima que eu devo ser respeitada, como procuro sempre estar respeitando os outros e outras com as suas adversidades.

Continuo sendo a mesma mulher guerreira, que luta até o fim por aquilo que acredita com unhas, dentes, mãos e pernas, sonha, chora, dança, sorri, ama, trepa, briga, crê e cansa. É duro demais para mim entrar na sintonia completamente divergente entre o meu corpo e a minha cabeça. O meu “cabeção” corre, o corpo anda, entretanto, não sou/estou inválida, apenas buscando readaptação. Eu penso muita coisa, reflito bastante. Eu sirvo para um monte de coisa, não preciso que ninguém repita isto para mim, mas não quero ser tratada como coitada, inválida ou coisa parecida.

Há duas semanas, voltei ao trabalho. A médica perita me disse que eu poderia prorrogar a licença por mais seis meses ou até me aposentar, mas eu não quis e disse isto a ela categoricamente. Eu sempre fui ativa, produzi bastante e não quero ser aposentada por invalidez ou ficar renovando licença médica com apenas 28 anos de idade. A minha consciência hoje não permite ser tão escrota, inclusive comigo mesma. Estou amparada pela minha autoconfiança e pela equipe médica que me dá suporte.

A volta tem sido muito difícil. Eu era vice-diretora do turno vespertino, de uma escola no subúrbio soteropolitano, com sete turmas de 5ª série, o restante do Ensino Fundamental. Eram 17 turmas ao total. Muito diferente tem sido agora no noturno, onde os alunos são adultos em sua maioria trabalhadores que chegam cansados e não estão dispostos a correr pelos corredores da escola. Era ensurdecedor o horário do intervalo, a minha sala vivia cheia de problemas a resolver, pais, mães e responsáveis para conversar, me envolvi em todos os projetos da escola, carreguei esta responsabilidade por conta do amor que desenvolvi pelas crianças e jovens desta escola, era responsável pela compra, organização e manutenção da merenda escolar, era a tesoureira da escola, levei os meus amigos e amigas para desenvolverem as suas competências em favor da escola a troco de quase dinheiro nenhum, mas de uma satisfação que me envergonha pelos abusos que dei a eles com telefonemas, cobranças, pedidos escrotos de trabalhos e tudo isso porque eu acredito no que faço e eles acreditam em mim e no que faço também. O resultado está claro. O Edson Tenório não é mais o mesmo.

Roberta, “Mulher de Fé” trabalhou de forma séria com a ornamentação da parte física da escola nos nossos projetos; Fábio Santana, ator do Bando de Teatro Olodum me informou para inscrever a escola num projeto belíssimo, “Outras Áfricas” e nós levamos os alunos e alunas ao teatro, professores às atividades sobre a temática africana, além de desenvolver uma oficina de teatro com 30 alunos e o resultado foi fantástico; Helder Barbosa divulgou os nossos trabalhos através das suas lentes no “Aldeia Nagô”, além de contribuir financeiramente com o “Projeto Afro-Consciente 2010” e me colocou numa rede muito legal de contatos parceiros para tudo aquilo que fazia na escola; Fabrício Mota, amigo meu professor de História, foi até lá dar contribuições com as nossas conversas preparatórias para o vestibular; Ed, amigo meu dono de uma loja de fotografia patrocinou a revelação das nossas fotos e não foram poucas, acredite; Nani de João Pequeno, Cristiane, neta do “cara” da capoeira, João Pequeno, desenvolveu uma orquestra de berimbau na escola, com os alunos e alunas construindo seu berimbau, Maise Balbino me acomodava na sua casa, estava comigo grudada em todos os dias da semana, além sábados de oficinas ou domingo se fosse preciso; Amanda Mello, nutricionista e professora do Centro Universitário Jorge Amado incluiu a escola no programa de estágio da instituição e tivemos pela primeira vez uma formação com as merendeiras da escola, atividades de promoção à saúde com os estudantes do Mais Educação, além de contribuir com a reelaboração do cardápio da merenda com as 15 nutricionistas que estavam na escola toda semana; Sérgio Laurentino, ator do Bando, nos trouxe contribuições com a fala sobre seu personagem “Exu”, no filme Besouro para os alunos e alunas; Nildinha, praticamente formou a grade de programação do “Projeto Afro-Consciente 2010”, viabilizou a participação de todos eles e elas, nomes brilhantes, pessoas sérias e dedicadas ao que discutem; Reinaldo suportou os meu faniquitos para fazer os vídeos, controlar o som, ensaiar as turmas, apadrinhar tudo que a gente promovia na escola. Fora aquelas pessoas que entendiam o meu empenho pelo bem da instituição e da comunidade escolar que “chegavam junto” comigo, como Domingos, Tânia e a chatíssima, mas competentíssima, inteligentíssima, retadíssima, Lucineide Vieira, a minha baixinha predileta que mesmo com todo stress, nunca me deixou sozinha. Sem contar com os professores e professoras do noturno, os quais tenho um imenso prazer em trabalhar hoje e que já reconheciam e valorizavam a minha fibra antes de trabalharem diretamente comigo. Ah, vale ressaltar que ainda não tinha o diagnóstico de MG e trabalhava como um cavalo e mesmo depois da minha primeira passagem em UTI eu voltei ao trabalho mesmo com limitações visíveis, mas eu voltei.

Será que nada disso conta agora?

Farei como Paulo Freire numa entrevista que ele deu e que afirmava que ele é bom no que faz sim, que não existe esta coisa de modéstia quando se é sincero e honesto. Sou uma puta profissional, tenho idéias incontestavelmente maravilhosas, não sou insubstituível, mas faço falta sim. A escola que trabalho hoje é visivelmente outra daquela de quando eu cheguei. Não conseguiria mudar a cara da escola sozinha, principalmente com a precariedade da estrutura da educação neste país. Não tenho paciência para esperar verba disso, autorização daquilo. Arregaço as mangas e trabalho. Estou num cargo de confiança há exatos um ano e três meses, isto porque devem confiar no que faço e não falho com quem dou a minha palavra, com quem me dá confiança.

Estou sempre presente na escola, não falto ou faço mau uso do meu cargo público. Até já fiz, quando agi de forma irresponsável, conjuguei o verbo manguear, mas quando me dei conta da merda que estava fazendo me reconfigurei numa profissional que bota para “f”, que segue algumas regras e que busca ter uma conduta exemplar, pois somente desta forma posso chegar na SEC com meu nariz empinado exigindo isto e aquilo. Geralmente, consigo o que vou buscar. Sou ousada mesmo e não tenho nenhuma vergonha de ser como sou.

Estou ciente de que agora eu não posso assumir um turno em que eu corria atrás das criaturinhas, dava um grito do portão quando via as aprontações e era ouvida na quadra, dançar break na hora do intervalo ou muito menos assumir um projeto que levava 200 alunos para o teatro, fazer reunião de pais nos turnos matutino e vespertino e ainda “ajeitar” o dia seguinte no turno noturno e passar do horário de me alimentar, mas me recuso a ser vice-diretora que assina papel, cumpre trabalhos burocráticos quando procura o que fazer ou entrega papel higiênico e piloto aos professores e professoras quando os mesmos acabam.

Infelizmente(?), estou bastante motivada pela fala da professora Amanda Gurgel (cujo vídeo seguirá num texto futuro, mas que pode ser encontrado no Youtube), afinal eu faço a minha parte e hoje tenho a autoridade de fala de gritar ao planeta que eu posso questionar quem quer que seja, pois sigo a minha “cartilha de atribuições” e a de uns e outros e tenho apenas três dígitos no meu contracheque. Reclamo, brigo, questiono, mas faço a minha parte, quando me deixam fazer.

O texto é um desabafo que não se dirige a ninguém especificamente, é apenas mais uma conversa minha, comigo mesma. Qualquer proximidade com aquilo que alguém tomou para si não deve ser considerada mera coincidência.

Adicionar legenda

PS: O texto não foi revisado, são 03:00 da manhã, estou com visão dupla e bastante cansada.