quinta-feira, 26 de maio de 2011

Não quero tolerância, eu exijo respeito



Respeite-me. Esta é uma exigência. Não quero a tolerância de ninguém, eu quero, exijo, preciso e mereço respeito. Tolerância é não aceitar como sou e apenas “suportar” por muitos e muitos motivos. Caso não seja assim, prefiro distância. Os últimos seis meses da minha vida têm sido um tsunami de coisas a fazer, a repensar, a mudar, a escolher, a viver, a sentir, a desejar, a temer, a gostar. Não estou apenas doente, sou doente. Esta afirmação não legitima o sentimento de auto-padecimento ou de dó de ninguém. Esta afirmação legitima que eu devo ser respeitada, como procuro sempre estar respeitando os outros e outras com as suas adversidades.

Continuo sendo a mesma mulher guerreira, que luta até o fim por aquilo que acredita com unhas, dentes, mãos e pernas, sonha, chora, dança, sorri, ama, trepa, briga, crê e cansa. É duro demais para mim entrar na sintonia completamente divergente entre o meu corpo e a minha cabeça. O meu “cabeção” corre, o corpo anda, entretanto, não sou/estou inválida, apenas buscando readaptação. Eu penso muita coisa, reflito bastante. Eu sirvo para um monte de coisa, não preciso que ninguém repita isto para mim, mas não quero ser tratada como coitada, inválida ou coisa parecida.

Há duas semanas, voltei ao trabalho. A médica perita me disse que eu poderia prorrogar a licença por mais seis meses ou até me aposentar, mas eu não quis e disse isto a ela categoricamente. Eu sempre fui ativa, produzi bastante e não quero ser aposentada por invalidez ou ficar renovando licença médica com apenas 28 anos de idade. A minha consciência hoje não permite ser tão escrota, inclusive comigo mesma. Estou amparada pela minha autoconfiança e pela equipe médica que me dá suporte.

A volta tem sido muito difícil. Eu era vice-diretora do turno vespertino, de uma escola no subúrbio soteropolitano, com sete turmas de 5ª série, o restante do Ensino Fundamental. Eram 17 turmas ao total. Muito diferente tem sido agora no noturno, onde os alunos são adultos em sua maioria trabalhadores que chegam cansados e não estão dispostos a correr pelos corredores da escola. Era ensurdecedor o horário do intervalo, a minha sala vivia cheia de problemas a resolver, pais, mães e responsáveis para conversar, me envolvi em todos os projetos da escola, carreguei esta responsabilidade por conta do amor que desenvolvi pelas crianças e jovens desta escola, era responsável pela compra, organização e manutenção da merenda escolar, era a tesoureira da escola, levei os meus amigos e amigas para desenvolverem as suas competências em favor da escola a troco de quase dinheiro nenhum, mas de uma satisfação que me envergonha pelos abusos que dei a eles com telefonemas, cobranças, pedidos escrotos de trabalhos e tudo isso porque eu acredito no que faço e eles acreditam em mim e no que faço também. O resultado está claro. O Edson Tenório não é mais o mesmo.

Roberta, “Mulher de Fé” trabalhou de forma séria com a ornamentação da parte física da escola nos nossos projetos; Fábio Santana, ator do Bando de Teatro Olodum me informou para inscrever a escola num projeto belíssimo, “Outras Áfricas” e nós levamos os alunos e alunas ao teatro, professores às atividades sobre a temática africana, além de desenvolver uma oficina de teatro com 30 alunos e o resultado foi fantástico; Helder Barbosa divulgou os nossos trabalhos através das suas lentes no “Aldeia Nagô”, além de contribuir financeiramente com o “Projeto Afro-Consciente 2010” e me colocou numa rede muito legal de contatos parceiros para tudo aquilo que fazia na escola; Fabrício Mota, amigo meu professor de História, foi até lá dar contribuições com as nossas conversas preparatórias para o vestibular; Ed, amigo meu dono de uma loja de fotografia patrocinou a revelação das nossas fotos e não foram poucas, acredite; Nani de João Pequeno, Cristiane, neta do “cara” da capoeira, João Pequeno, desenvolveu uma orquestra de berimbau na escola, com os alunos e alunas construindo seu berimbau, Maise Balbino me acomodava na sua casa, estava comigo grudada em todos os dias da semana, além sábados de oficinas ou domingo se fosse preciso; Amanda Mello, nutricionista e professora do Centro Universitário Jorge Amado incluiu a escola no programa de estágio da instituição e tivemos pela primeira vez uma formação com as merendeiras da escola, atividades de promoção à saúde com os estudantes do Mais Educação, além de contribuir com a reelaboração do cardápio da merenda com as 15 nutricionistas que estavam na escola toda semana; Sérgio Laurentino, ator do Bando, nos trouxe contribuições com a fala sobre seu personagem “Exu”, no filme Besouro para os alunos e alunas; Nildinha, praticamente formou a grade de programação do “Projeto Afro-Consciente 2010”, viabilizou a participação de todos eles e elas, nomes brilhantes, pessoas sérias e dedicadas ao que discutem; Reinaldo suportou os meu faniquitos para fazer os vídeos, controlar o som, ensaiar as turmas, apadrinhar tudo que a gente promovia na escola. Fora aquelas pessoas que entendiam o meu empenho pelo bem da instituição e da comunidade escolar que “chegavam junto” comigo, como Domingos, Tânia e a chatíssima, mas competentíssima, inteligentíssima, retadíssima, Lucineide Vieira, a minha baixinha predileta que mesmo com todo stress, nunca me deixou sozinha. Sem contar com os professores e professoras do noturno, os quais tenho um imenso prazer em trabalhar hoje e que já reconheciam e valorizavam a minha fibra antes de trabalharem diretamente comigo. Ah, vale ressaltar que ainda não tinha o diagnóstico de MG e trabalhava como um cavalo e mesmo depois da minha primeira passagem em UTI eu voltei ao trabalho mesmo com limitações visíveis, mas eu voltei.

Será que nada disso conta agora?

Farei como Paulo Freire numa entrevista que ele deu e que afirmava que ele é bom no que faz sim, que não existe esta coisa de modéstia quando se é sincero e honesto. Sou uma puta profissional, tenho idéias incontestavelmente maravilhosas, não sou insubstituível, mas faço falta sim. A escola que trabalho hoje é visivelmente outra daquela de quando eu cheguei. Não conseguiria mudar a cara da escola sozinha, principalmente com a precariedade da estrutura da educação neste país. Não tenho paciência para esperar verba disso, autorização daquilo. Arregaço as mangas e trabalho. Estou num cargo de confiança há exatos um ano e três meses, isto porque devem confiar no que faço e não falho com quem dou a minha palavra, com quem me dá confiança.

Estou sempre presente na escola, não falto ou faço mau uso do meu cargo público. Até já fiz, quando agi de forma irresponsável, conjuguei o verbo manguear, mas quando me dei conta da merda que estava fazendo me reconfigurei numa profissional que bota para “f”, que segue algumas regras e que busca ter uma conduta exemplar, pois somente desta forma posso chegar na SEC com meu nariz empinado exigindo isto e aquilo. Geralmente, consigo o que vou buscar. Sou ousada mesmo e não tenho nenhuma vergonha de ser como sou.

Estou ciente de que agora eu não posso assumir um turno em que eu corria atrás das criaturinhas, dava um grito do portão quando via as aprontações e era ouvida na quadra, dançar break na hora do intervalo ou muito menos assumir um projeto que levava 200 alunos para o teatro, fazer reunião de pais nos turnos matutino e vespertino e ainda “ajeitar” o dia seguinte no turno noturno e passar do horário de me alimentar, mas me recuso a ser vice-diretora que assina papel, cumpre trabalhos burocráticos quando procura o que fazer ou entrega papel higiênico e piloto aos professores e professoras quando os mesmos acabam.

Infelizmente(?), estou bastante motivada pela fala da professora Amanda Gurgel (cujo vídeo seguirá num texto futuro, mas que pode ser encontrado no Youtube), afinal eu faço a minha parte e hoje tenho a autoridade de fala de gritar ao planeta que eu posso questionar quem quer que seja, pois sigo a minha “cartilha de atribuições” e a de uns e outros e tenho apenas três dígitos no meu contracheque. Reclamo, brigo, questiono, mas faço a minha parte, quando me deixam fazer.

O texto é um desabafo que não se dirige a ninguém especificamente, é apenas mais uma conversa minha, comigo mesma. Qualquer proximidade com aquilo que alguém tomou para si não deve ser considerada mera coincidência.

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PS: O texto não foi revisado, são 03:00 da manhã, estou com visão dupla e bastante cansada.

3 comentários:

Ana Azimovas disse...

Day, vc não fez nada vc não foi nada, vc fez é ainda é, passado não existe quando se realiza um trabalho como o seu que certamente perdurará ainda que a forma não seja a que vc desejaria que fosse...
quanto as pessoas cada um somente pode dar o que lhe é inerente e infelizmente as vezes falta alguma coisa ou muitas coisas, afinal estamos falando de seres humanos ...não direi para vc não desanimar pq não seria sua característica o desanimo, mas nesta sua adaptação vc se adaptará muito mais as pessoas do que elas a vc, mas as que estiverem do seu lado são as que valem a pena estar...infelizmente, nem todos conseguem atingir um nível de entender mudanças sejam elas de pessoas ou de coisas....e pior as vezes tu faz um excelente trabalho e incomoda pq fez um excelente trabalho..quando alguem quer "ser inoportuno, inconveniente ou até mesmo injusto, acha sempre oportunidade para isso, se não acha cria.
nesta fase de adaptação a MG escolha somente o que te faz bem e quem te faz bem, na realidade já deveria ser assim antes da doença, mas, com a a MG apreendemos melhor que saber escolher e apreender a aceitar o que não aceita e entender o que não se entende pode fazer parte de todo processo e nos fazer pessoas melhores não por aceitar, mas por compreender e conseguir se afastar do que não convêm, haja vista o que importa é a vida, algo maior do que coisas pequenas...o que é grande sempre vai ficar ainda que seja um pequeno gesto e nada se perde sendo assim como vc é buscando fazer seu melhor dentro do que pode e consegue..não se cobre além disso, vc é importante e sempre será quem não entender isso talvez não importe para vc, só resta vc perceber isso e seguir, afinal Deus te livrou de algo pior e em assim sendo te avisa aproveita e escuta... há muitos caminhos maravilhosos abertos para ti...
abraços amiga
Ana Azimovas
www.anaazimovas.blogspot.com

Dona Dayse Sacramento disse...

Assim não vale, Aníssima... Aí eu choro... Obrigada pelas belas palavras!

Livia disse...

"se todos fossem iguais a você"